domingo, fevereiro 10, 2008

O LADO NEGRO DO MAR DA PALHA ( O LODO)




O Estuário do Tejo, não fosse a opção industrializadora tardia num modelo já então abandonado noutras paragens , teria hoje todas as possibilidades para ser um destino de turismo ambiental à escala mundial e uma zona onde indústrias ecologicamente sustentadas ligadas ao rio trariam um potencial economico invejável.

Tal não aconteceu, e hoje , as àguas calmas da maré cheia iludem o que parcialmente se mostra na preia-mar , um leito lodoso onde durante cerca de meio século se deitou tudo a perder sob a forma de resíduos industriais não tratados, esgotos domésticos urbanos igualmente sem tratamento e resíduos da industria naval e quimica que acabaram com a fauna e flora local.

Hoje , apesar de uma melhoria no tratamento de esgotos, continuamos numa situação em que a maioria dos esgotos continuam a não ser tratados e a ser despejados directamente no rio e como ontem vimos, continuam-se a permitir indústrias e actividades altamente poluentes no Estuário.

Acenaram ao Além-Tejo com um futuro melhor, as hordas de imigrantes desertificaram o Sul e o Interior iniciando um processo que não mais teve fim e a Margem-Sul a partir daí descaracterizou-se com autarcas e "exploradores da classe operária" a darem as mãos e a esfregarem as mãos de contentes no seu interesse comum , processo que hoje se mantém com outros e em muitos casos com os mesmos intervenientes travestidos...

Perderam-se assim actividades ligadas à pesca e à recolha de moluscos e criação de ostras, uma actividade que foi tendo o seu fim com a instalação da CUF no Barreiro nos anos setenta e com a Lisnave em Cacilhas . O Tejo então era rico em algumas espécies piscicolas como o safio, a corvina, o charroco e o robalo, o linguado, o camarão e o lingueirão.

Mas uma actividade que a ter condições para ter continuado teria tornado hoje o estuário do Tejo numa região geradora de riqueza, teria sido a criação de ostras cuja qualidade era no início do século reconhecida na Europa e que hoje tornaria o Estuário numa das principais zonas exportadoras de Portugal.

Para que tal volte a acontecer é necessário a redução drástica dos poluentes despejados para o rio, mas também a depuração de metais pesados e toxicos depositados nos lodos ao longo de anos e que continuam a fazer os seus estragos em termos de mutação genética em muitas espécies, das quais as ostras continuam a ser o principal paradigma.

Prioritário em relação à construção de marinas e pontos de atracação é bom que se invista na desassoreação de canais de navegação de forma a permitir, não só actividades náuticas, mas também uma dinâmica de correntes que permita atenuar os efeitos (e o comum mau cheiro) dos materiais depositados ao longo de anos e que tornam o leito lodoso deste Estuário num nem sempre visível, mas sempre presente ponto negro!

3 comentários:

hkt disse...

É isso mesmo. Menos entusiasmo com um bando de flamingos e, nais trabalho para recuperar o estuário do Tejo.

Velas do Tejo disse...

A associação desta imagem a este artigo não deixa de ser curiosa, sendo que regista o espaço onde outrora nascera o estaleiro dos Venâncios. Há 15 anos atrás, embarcações de médio porte, com calados de 4 metros e julgo que superiores, navegavam até esta zona da baía. Nos dias de hoje, nas melhores marés temos 2 metros de água, ou seja, em menos de 15 anos perdemos, provavelmente, 4 metros de àgua para dar lugar a um mar de lôdo. (Reconheço alguma imprecisão nestes números, contudo, onde estou não tenho acesso às cartas náuticas que me fundamentam.)

Feitas as contas, garantidamente, há um área significativa da baía que desaparecerá dentro de pouco mais que uma década, dando lugar a zonas pântanosas conforme as que já vislumbramos nas proximidades da ponte da fraternidade.

No próximo dia 16 de Fevereiro, na Náuticampo na FIL, no Stand da Ass. Náutica Marina Parque das Nações, Centro Náutico Moitense e Associação Bandeira Azul, o Professor Carvalho Rodrigues apresentará um novo movimento cívico, denominado a Marinha do Tejo, cuja intervensão passará pela luta por um Tejo melhor (despoluído, desassoreado e acessível), pela defesa da cultura marítima como instrumento de ensino e promoção turística.

O Ponto Verde, poderá continuar a manter o anonimato sendo, da minha parte, considerado convidado de honra.

Se me permite a referência Ponto Verde, no mês passado, http://baiadoseixal.blogspot.com, escrevi um modesto artigo - nada que se compare com a qualidade com que nos presenteia - entitulado Assoreamento: Crime ou Desmazelo

Ponto Verde disse...

Agradecimento aos comentários e sempre preciosas informações.