sábado, agosto 19, 2006

A CAUSA DAS COISAS


Vinte e dois anos e desassete edições depois continua tristemente actual.

Um exemplo (ARRANJAR):

Em Portugal, como todos os portugueses sabem, é muito raro conseguir seja o que for. Em contrapartida tudo se arranja. O arranjar é hoje a versão portuguesa do conseguir. É verdade que quem espera sempre alcança, mas, como ninguém está para esperar, em vez de alcançar o que se quer, arranja-se outra coisa qualquer. (...)

Enquanto tudo se continuar a arranjar nada se há-de conseguir em Portugal. O mercado dos arranjos, dominado por uma multidão imensa de arranjistas e arranjões, é maior e está mais bem implantado que qualquer mercado negro. Para sair da mentalidade viciosa do arranjismo nacional, é preciso que cada português comece a distinguir entre arranjar e conseguir. Arranjar é obter algo por razões alheias ao mérito próprio e à justiça das circunstâncias - e logo representa tudo o que o conseguir, leal e esforçado não é. O arranjismo pode ser um reflexo de subdesenvolvimento, mas também é ao mesmo tempo, o principal motor dele . (...)

Arranjar é próprio de um país miserávelmente possível.É preciso começar a conseguir as coisas, seja com que dificuldade fôr. Senão Portugal chegará a um ponto em que nem arranjo há-de ter.

(Miguel Esteves Cardoso)

2 comentários:

Craven disse...

É mesmo isso.
Mas os vicios, ou sociedade obscura, que deu origem à queda da Monarquia em favor da República, mais tarde favoreceu a Ditadura e de novo à democracia, são a origem do não fazer, e viver de expedientes pouco claros. São familias que controlam o dinheiro e os politicos. Será que ainda é preciso mais explicações?
O MEC tem uns escritos interessantes.

^^c^^

Anónimo disse...

Tem havido arranjos e arranjistas ao longo da história , arranjada em muitos casos.