segunda-feira, fevereiro 27, 2006

GRAFITTI E AMBIENTE URBANO - A CIDADANIA













Do que aqui foi escrito, mas sobretudo pelas imagens apresentadas fácilmente se conclui estarmos perante um acto individual ou grupal que atinge fundo na cidadania e nas liberdades individuais e colectivas, violando o principio básico de que a liberdade de um cidadão termina no preciso lugar onde colide com a do seu igual e logo com as regras sociais estabelecidas.

Esta forma de delinquência urbana destroi propriedade publica e privada, património e agride o cidadão ao produzir um ambiente que vai influir com a sua forma de estar no espaço urbano, agredindo-o visualmente e estimulando negativa e agressivamente os seus sentidos.

Por outro lado demarca territórios numa ante-câmara de posse grupal ou então pretende enaltecer os indíviduos que deixam a sua marca em atitude desafiadora perante os seus iguais e perante a lei e a autoridade.

Impávidos e serenos temos quem foi eleito para gerir e cuidar do bem comum, os autarcas, e aqueles investidos de poder pela sociedade democrática de forma a aplicar uma lei, que afinal existe , a policia e os tribunais.

Há ainda por parte de muitos de nós, cidadãos e autarcas a ideia que afinal esta é uma forma de expressão que nos põe saloiamente ao nível de Nova Iorque ou Londres, ou Paris, desconhecendo que essa realidade é combatida ferozmente e com sucesso nessas metrópoles, dedicando as autoridades, redobrada atenção a este fenómeno há uns anos quando visitou Lisboa, o responsável pela segurança de Nova Iorque avisou de que as autoridades portuguesas deviam ter "cuidado com os grafitters", desde 1995 que a politica em Nova Iorque é de "tolerância zero" sobre este fenómeno considerando que esta prática está relacionada com delinquência juvenil estando proíbida a venda de tintas em spray e outro material utilizado, a menores de 18 anos.

Em Inglaterra onde há um cuidado extremo com o património construído e com a natureza, vem dos anos 70 o combate a esta praga, as multas para os apanhados em flagrante é de 5000 libras prevendo a lai outras restrições à movimentação dos prevaricadores.

Em Espanha, as multas podem atingir 3000 euros tendo havido em Madrid um grande esforço na limpeza do espaço degradado com pinturas, tendo sido removidos cerca de um milhão de metros quadrados com custos de seis milhões de euros.

Este é assim um tema que está na ordem do dia, não se podem criar espaços habitacionais com harmonia se ao mesmo tempo o cidadão está de imediato confrontado com danos na sua propriedade e no espaço publico pago por todos, curiosamente nas ultimas autárquicas, na Margem Sul, não encontrei em nenhum programa o combate a este flagelo urbano como medida prioritária ou sequer a implementar. No entanto, o crescendo que tal está a tomar, com prejuizo inclusivamente para a circulação rodoviària (pitura de indicações e sinalética) , e dado que as autarquias estão finalmente motivadas para a remoção (de outra praga) da publicidade ilegal que povoa as artérias e estradas (espera-se que não seja só por não render nada aos cofres das autarquias) espera-se que alguma medida com carácter de urgência seja tomada.

Há que pelo menos actuar por um prisma, mesmo para aqueles que aqui vêm arte ou uma mais valia para o espaço urbano; se o comum dos cidadãos tem que apresentar proposta de cobertura da fachada quando constrói uma casa, se essa pintura (ou outro revestimento) tem que ser aprovado pela autarquia e ter enquadramento estético no resto da rua ou espaço envolvente, então porque se permite estas pinturas que alteram esse aspecto e que ainda por cima são feitas sobre propriedade alheia? Temos dois tipos de cidadãose e de obrigações ?
Se autarquias como a do Seixal têm fiscais empenhados até no controle de toldos de estabelecimentos comerciais, porque não há brigadas de vigilância destes actos de vandalismo urbano e há uma atitude não só laxista, mas de permissividade e até de incentivo?

São estes senhores politicos eleitos ou meros graffiters politicos???

9 comentários:

Anónimo disse...

vamos grafitar as ruas com mensagens ambientais:
"mais jardins no meu bairro" etc
mostrar a indignação como cidadãos e exercer cidadania.
por um grafitti activista

Quinta do Sargaçal disse...

Tenho seguido com atenção esta série.
A questão do graffiti como arte é totalmente irrelevante, serve para desviar a atenção da questão principal, que já foi muito bem documentada aqui: a vandalização da propriedade pública e privada.
Apenas o conceito de "propriedade" é necessário reter para que 99% dos argumentos a favor dos grafittis caiam por terra.
O 1% que resta, seria para alguém que pintasse a sua própria casa, mas mesmo isso tem ou deve ter regras. Tal como já não é possível colocar azulejos de casa de banho nas paredes exteriores (banidos e muito bem pelo eng. Carlos Pimenta).
De resto, é verdade que têm sido editados livros, realizadas exposições e outras manifestações ditas culturais, que tentam elevar o estatuto do graffiti, muito enraizado na marginalidade. Mas essas editoras e esses museus, nunca permitiriam essa arte não autorizada nas suas próprias paredes. Para essas instituições, o graffiti, é bom é nas paredes dos outros -- de preferência longe.
Há formas de trabalhar a spray, que não agridem ninguém, pelo contrário, como por exemplo Peter Kuper.

Carlos (Brocas) disse...

Isto não é bem um grafitti mas....
é no Barreiro.
http://blogdobrocas.blogspot.com/2006/02/1114-limpeza-de-cartazes.html

Isto que o meu amigo oliude publica, também não...
http://alhosvedroscity.blogspot.com/2005/11/agora-esto-caladinhos.html

Mas, que morar teram as camaras CDU da Moita e Barreiro para.....

Anónimo disse...

Quinta do sargaçal toca num ponto chave, só falta aqui, depois dos artigos falar de quem se sente agredido e afectado psicológicamente por esta forma de violência urbana.

jardineira disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
jardineira disse...

Só hoje consegui ler com calma os posts sobre grafitti que, com grande oportunidade, têm vindo a ser colocados. Obrigada pelo comentário que me deixou, alertando-me para eles.
Parece-me que a dualidade de leituras sobre esta prática se pode resumir a dois pontos essenciais:
- o grafitti é uma prática anárquica, que invade a esfera pública e privada e atinge os valores de propriedade de uma sociedade à margem da qual os taggers e graffiters se colocam
- o graffiti é uma manifestação artística, que promove a ideia de um espaço urbano livre e que, pela acção de artistas como Keith Haring ou Jean Paul Basquiat por exemplo, foi elevada ao estatuto de obra artística.
Parece-me interessante referir neste contexto o caso do Muro de Berlim, cuja intervenção "institucionalizada" no lado ocidental foi amplamente aplaudida e interpretada como um exercício da liberdade "do lado de cá" . Um fragmento do mesmo muro foi levado em finais dos anos 80 para Nova York e exposto em frente ao MOMA.
Tudo isto me leva a concluir que o fenómeno, que recebemos por importação, deve ter a sua interpretação à luz do contexto cultural em que aparece. Valores como a propriedade, o património (no caso dos graffiti em edifícios históricos, por exemplo) ou a segurança (no caso dos tags em sinais de trânsito) são valores universais que, a par da liberdade, a sociedade contemporânea conquistou e quer ver respeitados. Não acaba a minha liberdade onde a do outro começa?
susana

Anónimo disse...

Também me recordo da visita de um tal mayor de NY....Falou-se muito sobre a forma de tolerância zero por lá aplicada...., ficando-se a saber que, grupos organizados de vigilantes podiam apanhar em flagrante e partir uns braços e mãos....
Educativo! Cidadania?

Solariso disse...

Obviamente o Grafitti incomoda aqueles que vêem as suas paredes pintadas com assinaturas que ninguém percebe, sem estética ou mesmo com estética.
Óbviamente que o Grafitti é uma invasão do espaço público e privado.

Mas porquê?

Obviamente poderiam ser criadas zonas livres para que se pudesse fazer Grafitti. Quantos e quantos lugares sombrios e cinzentos existem dentro das cidades que poderiam levar alguma cor.
Porque não enfrentar o problema de frente?
Definir zonas livres para Grafitti. Criar concursos públicos a nivel municipal para que os "artistas" de grafitti possam apresentar o seu projecto. O vencedor ou vencedores ganhariam direito a pintar o espaço.

Parece-me que tudo isto tem haver com falta de vontade em atacar as questões de frente.
Também não se pode andar por ai a escalar edificios, no entanto foram criados espaços para o efeito. O Skate também esteve associado ao movimento de rua, no entanto foram criados espaços para a sua práctica.
O futebol foi proibido de jogar nas ruas de Inglaterra, no entanto hoje é o que se vê.

Tudo tem uma solução e certamente que passa por definir espaços e criar espaços próprios para que todos que gostam de fazer Grafittis assim como todos os que apreciam essa "arte" tenham a oportunidade de a fazer legalmente.

Depois de existirem espaços legais para o Grafitti ai sim teremos toda a legitimidade de criticar ou punir aqueles que o façam em espaços públicos ou privados não livres ao grafitti

Quinta do Sargaçal disse...

Depois de existirem espaços legais para o Grafitti ai sim teremos toda a legitimidade de criticar ou punir aqueles que o façam em espaços públicos ou privados não livres ao grafitti
Era o que faltava, só ter legitimidade para criticar ou punir quem vandaliza a propriedade pública e privada, depois de esta ou aquela condição.
Que eu saiba, este tipo de crime é semi-público, nem de queixa necessita. Como a impunidade é o que grassa, os resultados estão à vista.
Quanto às soluções, um espaço para skate, futebol ou desporto em geral, é um equipamento que pode ser utilizado por todos; um espaço para graffiti, pode ser utilizado por quem? Pelo primeiro a lá chegar?
Por um lado, por outro, em que lugar das prioridades estará gastar dinheiros públicos com essa actividade? Antes ou depois da educação, saúde, ciclovias, jardins, etc, etc.?
Quanto às zonas sombrias das cidades, pintá-las a spray com mensagens indecifráveis ou inenarráveis, não é propriamente o meu conceito de reabilitação. Aliás, uma zona cinzenta com graffitis, é mais um passo na degradação urbana.
Em Nova iorque, atacaram de frente o problema, disso não há dúvida. Vai-se lá, a cidade está limpa que dá gosto.
Numa outra vertente e para mim ao mesmo nível, está o PCP e o Bloco de extrema esquerda. Para esses também continua a não haver propriedade pública e privada. Têm dinheiro para colar cartazes e borrar paredes todo o ano, nem a sinalética do Metro do Porto, nova em folha, escapa.
Quando o presidente da câmara (do Porto) decidiu impôr alguma ordem fora da época campanha eleitoral, vieram logo berrar pela liberdade. Também esses deviam pagar aquilo que estragam.